domingo, setembro 4

Fernando Pessoa II

Senhor António:

O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.

(...)

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.

(...)

O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou a chorar.


Maria José

O completo encontra-se aqui.

segunda-feira, agosto 29

quinta-feira, agosto 25

As caras

Fotógrafo desconhecido.



Peter Jensen - Anna Karina



Cliquem aqui para aceder à restante colecção de Peter Jensen.

segunda-feira, agosto 8

Kathryn Calder

A vocalista dos New Pornographers em Setembro estará em Portugal a partilhar a sua voz no FMI (Festival de música independente):

Jascha Heifetz

Butoh

Foi nos anos que se seguiram às guerras em território japonês que o Butoh se popularizou. Danças contemporâneas que revolucionartam o mundo da dança e a forma como esta é vista. Butoh baseia-se em movimentos tradicionais japonese, em movimentos vanguardistas, em Noh, Kabuki e até mesmo Chi Kung e Tai Chi. As imagens poderosas das danças Butoh desperta em nós uma força maior.

Aqui se encontrara uma coreografia de Tatsumi Hijikata fotografada por Masato Okada:





Cartazes Vintage































Pellegrino também disse

"Porque morremos, urge nascer.
Porque somos finitos, existe em nós a vocação de arranhar o infinito com a nossa insônia."



Hélio Pellegrino

Pink Floyd







Pink Floyd são, essencialmente, a banda sonora da minha vida. Ouvia-os enquanto crescia e cresci a ouvi-los. Great gig in the sky é sem dúvida uma das músicas mais marcantes e mais extraordinárias que foi criada.

Fusilli com Courgette



Para fazer massa fusilli com courgette é necessário:
  • 500 gramas da massa
  • azeite
  • 2 courgettes
  • 1 pimento
  • 2 tomates
  • cebola
  • um pouco de alho
  • sal e pimenta
  • queijo ralado
Preparação:

Começar por colocar um pouco de azeite misturando a cebola e o alho e deixar corar. Depois corta-se as courgettes em rodelas finas e cortar os tomates e o pimento em pequenos pedaços. Junta-se ao tacho do estrujido e acrescenta-se um pouco de agua, pimenta e sal. Ao fim de 6 minutos acrescenta-se a massa. Quando está estiver pronto pode-se acrescentar um pouco de oregãos e o queijo ralado.

Pessoa uma vez disse

"Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."

Fernando Pessoa

Quando Jean Rouch e Edgar Morin...

...se juntaram deu nisto:

domingo, agosto 7

flower power


Clicar aqui para aceder ao site.



Jantar assim...

... dá gosto!



Eis o meu jantar de ontem. Seguido de um fondue de chocolate com fruta.

Aëla Labbé




























As fotografias de Aëla Labbé vivem, essencialmente, da presença infantil dos seus irmãos, do meio rural e espiritual. Aqui encontraram as outras fotografias.

Bats and Swallows



Bats and swallows trabalham muito no campo do video experimental. Aqui está o site: http://batsandswallows.blogspot.com/

Conservas Nero




As Conservas Nero prometeram novidades e aqui está uma muito gourmet: Conservas de peixe espada preto. Uma iguaria única e popular dos anos 40.